Maura Prada

será que eu estou me enganando será que eu estou

me enganando

e de novo e de novo e de novo será que eu estou

me escondendo será que eu estou

me esquivando

será que eu estou

será que eu

estou

Eu procuro e não acho nada tenho chorado demais tenho gastado todo o meu tempo com nada mas o meu irmão me disse que isso não importa. O meu irmão me disse que lá na frente tem outra coisa, que lá na frente tem uma outra coisa que não essa. A chuva é mesmo um alívio. Água de sal nos olhos e um peso que eu não visitava há muito tempo.

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passear pelos homens

mergulhar em seus mundos

sentir os seus gostos

ouvir as suas músicas

ler os seus livros

saber das suas histórias

e quem são as suas mães

e onde doem os seus desejos

e quais as memórias que eles

carregam

(quando olho para um homem vejo

imediatamente

a infância dele)

e então amarrar os corações

meu sangue seu sangue

querer com desespero

amar com força

e depois

partir

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“O ciúme lançou sua flecha preta

E se viu ferido justo na garganta

Quem nem alegre nem triste nem poeta

Entre Petrolina e Juazeiro canta”

O coração que já molhado bate torto em desespero. O abandono passado que nem nunca aconteceu. A flecha do que já foi ou pode ter sido mais forte do que a minha presença. A dor vermelha de não ter sido a primeira. E nem a última. O ciúme é mesmo uma flecha preta, porque não existe e ainda toma o corpo todo. A sombra densa da falta: tudo é perda no buraco do vazio. Tudo é perda quando, depois do êxtase, não sobra nada de sólido. Quem é terreno não vive sem o sólido. E tudo fica escuro. Êxtase e vazio. E eu sou só eu só eu só eu só eu só. Por isso não morro.

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Pode um desejo existir dentro da gente. Pode um desejo existir dentro da gente tão grande que basta. E basta? Eu aprendi a navegar muito fundo nas vielas da minha imaginação e não reclamo. Porque às vezes o que se vive dentro pode ser maior do que o que se vive fora. Ainda que ser maior não signifique ser completo, nem real, nem vivo. E o que não é vivo perde nos sentidos e, talvez, fique em segundo. Mas segundo, pra mim, é mais o bastante do que nada. Que mora colado no fundo do meu desejo, mas ocupa um espaço único. Pelo menos é lúdico. E serve de norte.

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Maura Prada

Maura Prada

o erro como caminho a verdade como escudo (@mauraprad)